05/02/2018 às 11h02min - Atualizada em 05/02/2018 às 11h02min

Ícones do rock começaram 2018 dizendo que vão se aposentar

Fonte: (Silvio Essinger com colaboração de Bolívar Torres/Agência O Globo)

Antes que alguém avente uma reforma na Previdência, o rock tomou uma atitude: nunca se viu tantos anúncios de aposentadoria de grandes astros quanto nestes últimos dias. Guitarrista do Rush, banda canadense alçada ao Rock and Roll Hall of Fame, Alex Lifeson alertou aos fãs, em entrevista publicada no dia 16 de janeiro, que não esperem mais por nenhuma nova música do grupo: “Praticamente acabamos. Depois de 41 anos, sentimos que era o bastante”, disse ele, dois anos após o baterista do Rush, Neil Peart, ter decretado seu afastamento das turnês, por problemas físicos. Na segunda-feira seguinte, 22, foi a vez de o Slayer, uma das mais célebres e violentas bandas do heavy metal, dizer que fará sua última turnê, aos 37 anos de carreira. Na quarta, 24, Sir Elton John, 70 anos de idade e 50 de vida artística, avisou que passará os próximos três anos fazendo shows pelo mundo e depois vai deixar os palcos para cuidar dos filhos pequenos. E na quinta-feira, 25, o ícone do rock sulista americano Lynyrd Skynyrd, que sobreviveu a um acidente de avião em 1977 e a mil mudanças no gosto musical do público, anunciou sua turnê de despedida. 

Mitos do rock costumavam se formar quando viviam rápido e morriam cedo - de preferência, aos 27 anos, como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrisson, Kurt Cobain e Amy Winehouse. Mas, com o tempo, alguns deles acabaram batendo recordes de longevidade artística - caso de Chuck Berry, que morreu aos 90, mas que dois anos antes ainda estava gravando e fazendo shows. Os Rolling Stones e Bob Dylan seguem o exemplo, com suas turnês e álbuns esporádicos, estando bem além dos 70 anos de idade. Houve quem optasse simplesmente por parar - no entanto, nomes como Tina Turner, David Bowie (que deixou os palcos em 2004, mas ainda gravou álbuns antes de morrer, em 2016) e Rita Lee (que voltou a ser sucesso, mas como escritora) são exceções. Muitos dos que anunciaram suas aposentadorias voltaram atrás - e há quem especule que, na verdade, as turnês de despedida sejam grandes ações de marketing para promover turnês de arrependimento-da-despedida. Quem garante, afinal, que Elton, Slayer, Rush e Lynyrd Skynyrd vão mesmo cumprir suas promessas?

Mick Jagger é o autêntico representante da eterna juventude roqueira (Foto: Divulgação)

Maioria ameaça sair, mas volta

É uma situação nova, astros do rock se rendendo ao cansaço”, avalia Ricardo Alexandre, autor de “Dias de Luta” (Arquipélago), sobre o rock brasileiro dos anos 1980. “Os artistas pop costumavam ter prazo de validade muito curto: mesmo Sinatra teve uma ressurreição, Elvis também. Por outro lado, nos anos 1980, tivemos artistas chegando à maturidade, cantando sobre filhos, vida caseira etc. A gente tem agora uma nova fase com os grandes ícones morrendo de causas naturais”, completa. 

Para o cantor Erasmo Carlos - 76 anos, ainda nos palcos e, no momento, gravando um álbum - “a idade só chega no limite para um roqueiro quando o corpo não obedece à mente”. “Mas roqueiro brasileiro não pode se aposentar, já que ele canta em português e ganha em real. Esse é um luxo que só um Elton John pode ter”, objeta, com humor.

Guitarrista dos Titãs, Tony Bellotto, 57 anos, lembra que, em geral, a aposentadoria dos roqueiros vem quando eles não conseguem mais subir no palco ou quando sofrem uma overdose. “É uma profissão estranha”, diz ele, para quem “a maioria dos roqueiros aposentados volta a se apresentar por causa do aspecto viciante do showbusiness”. “Você simplesmente não consegue viver sem aquilo”, pontua.

E há, claro, a ilusão roqueira da eterna juventude, como analisa Marcelo Nova, 66 anos, líder do grupo Camisa de Vênus (que acaba de lançar a autobiografia “O Galope do Tempo - Conversas com André Barcinski”). “Hoje em dia, o Mick Jagger passa a vida na academia, com três instrutores, para manter os seus frangalhos em ordem. Ele acha essencial ser uma coisa que não é mais. Um Peter Pan do rock só fica bem na Disneylândia”, fuzila. “Acho muito mais bonito o lado do Chuck Berry no fim da vida, inclusive porque fazer shows era, para ele, uma questão de sobrevivência. Não importa se ele errava um acorde, ou não fazia o passo do pato. Você estava diante de um mito. E aquilo é rock, um show impecável é algo que nunca vai acontecer”, diz.

Autor de “BRock - O Rock Brasileiro dos Anos 80”, Arthur Dapieve atenta para as contradições que surgem quando se é velho mas ainda se faz rock. Para ele, poucos conseguiram lidar bem com elas. “Mas isso passou por mudanças na música, que precisou amadurecer também, num salto que nem todo mundo consegue dar. Bob Dylan, David Bowie, Leonard Cohen, Lou Reed conseguiram. Já ninguém imaginaria Elton John discreto, de camiseta preta e jeans, imaginaria?”, elocubra Dapieve.

Na análise da questão da aposentadoria dos astros do rock, Ricardo Alexandre alerta que é preciso antes distinguir o trabalho criativo, que sempre existirá, do “emprego” - ou seja, a série de desgastantes atividades ligadas à carreira musical de um artista, como turnês, entrevistas, ensaios e contato com os fãs. Mas é aí, segundo ele, que surge um problema muito próprio da indústria contemporânea: com a queda das vendas de discos, os músicos ganham hoje muito mais dinheiro com shows do que com direitos autorais. Isso coloca até mesmo figuras de grande renome na impossibilidade de pendurar as chuteiras. Suspeita-se que o cantor Tom Petty não resistiu à pressão de continuar se apresentando mesmo com terríveis dores nas costas - daí a overdose de medicamentos que o matou, em outubro passado.

“O maior peso é suportar essas demandas da indústria musical”, acredita o escritor. “Quando vejo algum artista se aposentando, me parece que ele está apenas se desobrigando de tudo que a profissão carrega, uma rotina emocionalmentedesgastante que foge aos olhos dos fãs.

 

Fui! Mas volto já...

-  Scorpions: Os alemães entraram em 2010 na sua excursão de despedida, que durou dois anos. Mas depois lembraram que, em 2015, iam fazer 50 anos de fundação. Comemoraram o aniversário com um disco e... mais uma turnê.

- Judas Priest: Em 2011, o guitarrista K.K. Downing se aposentou e o grupo começou a turnê que seria sua última, a “Epitaph World Tour”. O substituto Richie Faulkner deu novo gás à banda e ela continuou, nos palcos e discos.

- The Who: O grupo de “My Generation” (“espero morrer antes de ficar velho”) fez o seu primeiro show de adeus em 1982. Voltou em 85 para o Live Aid, prometeu uma turnê final para 2015 e, dois anos depois, tocou no Rio in Rio.

-  Phil Collins: O hitmaker inglês se aposentou em 2011 para se dedicar à família e cuidar da saúde. Cinco anos depois, ele anunciava a turnê “Not dead yet”, com a qual faz, mês que vem, os primeiros shows no Brasil da carreira solo.

- Ozzy Osbourne: Ameaçou parar de fazer turnês em 1992, com a “No More Tours”. Mas fez outras, inclusive com a sua antiga banda, o Black Sabbath. Ozzy promete que a deste ano, que chega ao Brasil em maio, será a última mesmo.

- Kiss: Em 2000, o grupo mascarado começou sua derradeira turnê, com a formação clássica. No meio dela, saiu o baterista Peter Criss. O substituto Eric Singer foi até o fim da tour, o Kiss gostou e não saiu mais da estrada.

(Silvio Essinger com colaboração de Bolívar Torres/Agência O Globo)


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