24/11/2021 às 18h13min - Atualizada em 24/11/2021 às 18h13min

A ilha misteriosa sob Mosqueiro: a natureza que encanta

A pequena ilha fez morada sob a movimentada ponte Sebastião R. de Oliveira, que liga o distrito de Mosqueiro aos demais municípios

Dol
 

Era uma manhã ensolarada de segunda-feira quando a comerciante Rosa Teixeira nos recebeu em seu pequeno comércio, às margens da rodovia PA-391. Moradora do Furo das Marinhas há 40 anos, ela alterna entre garantir que as perguntas sejam respondidas na entrevista e atender alguns clientes que chegam. Além de comunicativa, Rosinha é experiente frente às câmeras. Desenvoltura aprimorada pelo longo tempo de comércio e, em partes, por ter sido inspirada pelo próprio pai, já falecido. 

Ao longo dos experientes 51 anos, talvez nada mais surpreenda, exceto a nova ilha tão evidente nos últimos dois anos, bem na porta de entrada para a bucólica. “A ilha começou a crescer agora nesses dois anos pra cá. Era só a praia mesmo em cima”, lembra. “Eu achei bonita porque é uma coisa nova. É interessante. Tá bonita, mas acho que não interfere em nada. Na minha opinião, eu acho que não interfere porque é só nos lados [que está crescendo]… Só se ela crescer por baixo, né, e levantar a ponte”, diz um pouco sem jeito, rindo para descontrair.

As impressões de Rosinha são claras e refletem muito a visão de quem vive tão próximo da vegetação suntuosa que cresceu em tão pouco tempo. O cenário em questão é alternado com tons verdes claros e escuros, reafirmando sua presença no pequeno trecho da Sebastião R. de Oliveira, uma ponte de pouco mais de 1,4 mil metros de extensão e principal via de acesso do distrito de Mosqueiro a partir da capital paraense. Mesmo com a maré cheia é impossível não notá-la. A pequena ilha, que nasceu debaixo da estrutura, no Furo das Marinhas, chama atenção por se destacar da paisagem ao redor. É tão exuberante quanto responsável por abrigar seus próprios mistérios.  

A ilha dentro da ilha

De fato, explicar o surgimento tão repentino da “ilha da ilha” de Mosqueiro não é fácil. Ilhas não são formadas do dia para a noite, seu nascimento leva tempo. É um trabalho paciente, em que a natureza molda sua criação de acordo com os cenários que julgar favoráveis. Assim como tudo na vida, são etapas superadas até que atinja um desenvolvimento satisfatório. A ilha do Furo das Marinhas é uma incógnita porque cresceu rapidamente nos últimos dois anos, uma evolução que não passou despercebida pelos moradores e, principalmente, por especialistas.

“É possível que já existisse um banco na década de 1970. Esse banco cresceu ao longo do tempo e se transformou em barra devido ao acúmulo gradativo de areia, mas isso é uma suposição”, sugere a professora e pesquisadora aposentada da Faculdade de Geografia da Universidade Federal do Pará (UFPA), Carmena França.

Parte da imensa vegetação da nova ilha já alcança a estrutura da ponte de Mosqueiro

Parte da imensa vegetação da nova ilha já alcança a estrutura da ponte de Mosqueiro

 Parte da imensa vegetação da nova ilha já alcança a estrutura da ponte de Mosqueiro | Gabriel Caldas/DOL

O “banco” no qual a professora se refere é a primeira etapa da formação de uma ilha. Eles são discretos e estão sempre submersos. Depois de um tempo eles podem se tornar barras, extensões de terra que ficam expostas em um determinado período de tempo, quando a maré está baixa, por exemplo, permitindo uma colonização vegetal. Considerando todas as condições evolutivas, o processo pode atingir o último estágio com a formação de ilhas, quando a vegetação está sempre exposta.

“Esse processo é gerado por vários fatores, tais como: as correntes hídricas que transportam e depositam sedimentos, o tipo dos sedimentos (areia e argila), a morfologia do leito do canal. A ação humana também pode participar desse processo. Por exemplo, os pilares de uma ponte podem reduzir a velocidade da corrente hídrica, favorecer o depósito sedimentar e a consequente formação do banco ou barra”, explica França.

Esse nascimento discreto, ainda que não tenha sido oficialmente documentado e estudado, foi avaliado pela professora, que o descreve primordialmente como uma larga vegetação de mangue, possibilitando um novo território a ser explorado pelos predadores nativos da região. “Entre 2020 e 2021, as herbáceas (plantas rasteiras) começaram a ser substituídas por árvores porque elas tinham a função de preparar o ambiente para indivíduos mais exigentes do ponto de vista ecológico. Pode-se dizer que temos uma ilha coberta com vegetação de mangue. A ilha tende a crescer. Não há até agora sinais de erosão e o seu bosque de mangue tende a se adensar”, observa Carmena.

GALERIA: veja a ilha misteriosa sob a ponte de Mosqueiro

Curiosamente, quando o crescimento foi notado nos últimos dois anos, especulou-se a possível relação com a pandemia da Covid-19, mas a professora garante sem rodeios: essa relação com o novo coronavírus não existe!

“O desenvolvimento do mangue passou a ser possível em decorrência da estabilidade física do ambiente. Ou seja, o trânsito sedimentar diminuiu e a barra tornou-se mais estável, possibilitando a colonização vegetal que ocorre em etapas. Primeiro, instalaram-se os vegetais herbáceos. Depois, os herbáceos deram lugar aos vegetais arbóreos na medida em que o ambiente fornecia elementos para o seu desenvolvimento”, esclarece, didática e pacientemente.

A nova ilha se desenvolveu rapidamente nos últimos dois anos

A nova ilha se desenvolveu rapidamente nos últimos dois anos

 A nova ilha se desenvolveu rapidamente nos últimos dois anos | Gabriel Caldas/DOL

Convivência e conflito

Essa beleza natural, entretanto, tem provocado uma reflexão mais profunda, tão profunda quanto os pilares fincados e entrelaçados com o mangue recém-nascido. Existe um aparente conflito na existência entre a nova ilha e a ponte de Mosqueiro que tem sido reforçado também sob o olhar de alguns moradores. A dúvida que paira no ar: a ponte está ameaçada pela existência da ilha?

“Toda vegetação é agente de intemperismo, ou seja, transforma fisicamente e quimicamente rochas e materiais antropogênicos com os quais entram em contato. Dessa forma, ela [a ilha] pode, sim, provocar alterações nos materiais da ponte. Um engenheiro deve explicar isso melhor do que eu”, pondera a professora e pesquisadora.

“Eu levei um engenheiro da Prefeitura [de Belém] até a ilha. Eu acho que eles vão sumir com isso por causa das árvores que tão chegando lá na ponte, pode acabar levantando tudo”, diz Sebastião Pinheiro, morador do Furo das Marinhas que, entre as três profissões que exerce, está a de barqueiro.

“Sabá”, como também é conhecido, vigia o antigo Porto da Ecotur, área de embarque e desembarque da localidade que recebia balsas e outras embarcações antes da inauguração, em 1976, da ponte para o distrito. O dono da propriedade faleceu e, atualmente, é Pinheiro quem zela pelo local para a filha do antigo senhorio. Em um pequeno depósito, ele guarda os equipamentos que precisa e troca a roupa para uma mais apropriada, necessária para iniciar o trajeto até a ilha, feito de forma cuidadosa em uma rabeta.


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