03/11/2021 às 08h59min - Atualizada em 03/11/2021 às 08h59min

Mestras do Carimbó: atuação feminina cresce no movimento cultural; 'antes a mulher não era vista', diz carimbozeira

Nesta quarta-feira (3), é comemorado o 'Dia do Carimbó', que é patrimônio cultural do Brasil. Grupos formados apenas por mulheres cresceram nos últimos anos, diz associação.

G1 Pa

Nesta quarta-feira (3) é comemorado o Dia do Carimbó no Pará, que desde 2014 é reconhecido como patrimônio cultural e imaterial do Brasil. É uma das expressões culturais mais tradicionais da região Norte, que tem história construída por mãos que tocam instrumentos e costuram saias rodadas. Em cenário historicamente dominado por homens, as mulheres têm saído dos bastidores e ocupado a linha de frente pela salvaguarda da tradição do movimento.

De acordo com a Associação do Carimbó do Estado do Pará (Acepa), desde a conquista do reconhecimento o número de grupos cresceu no estado e também a participação das mulheres.

A associação tem hoje 125 grupos registrados, mas estima que existam, no Pará, mais de 250 grupos de carimbó, pois afirmam que têm sido frequente o surgimento de novas equipes, ainda não registradas.

Quanto às mulheres, há registro de 10 grupos femininos no Pará, realidade bem diferente de outros anos, diz a Acepa.

Mulheres do Grupo de Carimbó Tamboiara da Amazonia, de Belém. — Foto: Agência Pará

Mulheres do Grupo de Carimbó Tamboiara da Amazonia, de Belém. — Foto: Agência Pará

Mulheres do Grupo de Carimbó Tamboiara da Amazonia, de Belém. — Foto: Agência Pará

Tradição de família: 'sempre estive no carimbó'

Mestre Solange Loureiro mora em Parauapebas e coordena um ponto de cultura no município, o Zimba Carajás. Ela conta que sua vivência com o carimbó começou desde pequena, por influência da família, composta por carimbozeiros. Ela faz parte da Acepa e atua na linha de frente do movimento de salvaguarda do carimbó no Pará.

Os avós de Solange eram mestres de carimbó. A mãe, mestra Theo, é a atual presidente da Irmandade de São Benedito, em Santarém Novo, nordeste do Pará. A mestra é uma referência feminina para a filha, que leva o legado da família no trabalho que desenvolve, desde 2015, em Parauapebas.

Mestra Solange Loureiro, uma das coordenadoras do movimento da Campanha do Carimbó.  — Foto: Solange Loureiro/Arquivo pessoal

Mestra Solange Loureiro, uma das coordenadoras do movimento da Campanha do Carimbó. — Foto: Solange Loureiro/Arquivo pessoal

Mestra Solange Loureiro, uma das coordenadoras do movimento da Campanha do Carimbó. — Foto: Solange Loureiro/Arquivo pessoal

Mestra Solange diz que há uma crescente participação das mulheres em vários setores do movimento carimbozeiro no estado.

“É um ganho muito grande para nós carimbozeiros ter essa figura feminina à frente de grupos de carimbó, tocando os tambores, cantando, se destacando dentro do cenário da cultura popular", declara a mestra.

Solange é um exemplo da atuação feminina dentro do movimento. Ela participou do mapeamento dos grupos de carimbó existentes no Pará, feito de 2009 a 2012 , e que foi entregue ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Ela destaca a participação feminina em várias camadas do movimento do carimbó, inclusive na liderança de grupos masculinos.

"Temos muitos grupos que são masculinos, mas são coordenados por mulheres, então a figura da mulher é muito crescente dentro do carimbó, é uma figura de destaque”, afirma.

'Mulheres dentro do carimbó sempre existiram'

As mulheres têm contribuído de forma direta e indireta na salvaguarda da tradição do carimbó. Neire Rocha faz parte da produção do tradicional grupo de carimbó Sancari, nascido no coração do bairro da Pedreira, em Belém.

Neire atua no carimbó há 30 anos. Tudo começou na passagem Álvaro Adolfo, onde mora há mais de meia década, quando mestres de carimbó se mudaram para o local e começaram a se reunir para tocar. O esposo dela também tocava nas reuniões e aos poucos Neire estreitou os laços com o universo das maracas, pandeiros e curimbós.

Ela também participou de perto do movimento que resultou no reconhecimento do carimbó como patrimônio cultural.

"Visitamos quase todo o Pará com nosso próprio dinheiro, começamos a recolher assinaturas para que fosse patrimônio e em 2014 conseguimos", conta.

Neire ainda atua dentro da comunidade onde mora, com projetos de carimbó voltados para crianças. O trabalho é uma forma de manter viva a tradição carimbozeira para a nova geração. Ela conta que nesses 30 anos de vivência no movimento, sempre viu a participação feminina ativa, mas não reconhecida.

"Nós mulheres, dentro do carimbó, sempre existimos, quer seja na lavagem da roupa, na agenda. Sempre estivemos dentro do carimbó, só que há uns cinco, seis anos atrás, a mulher não era vista, o carimbó era totalmente machista, a mulher não sentava no 'curimbó' para tocar. Devido essa emancipação da mulher, em que o lugar dela é onde ela quiser, já apareceram grupos de mulheres. A mulher sempre esteve, mas não tinha esse reconhecimento", explica.

Neire começou nos bastidores, mas diz que se orgulha de ver as mulheres ocupando espaço de destaque, contexto muito diferente do que vivenciou em outra época.

“Isso pra mim é enriquecedor porque era o que eu queria fazer lá atrás, só que eu não tinha coragem e não me deixavam fazer”.

'Às vezes, temos que nos impor'

Mestre Claudete Barroso é coodenadora do projeto Alegria da Água Doce Mirim de Fazendinha, em Marapanim, nordeste do Pará. Ela conta que o carimbó sempre foi um movimento bastante patriarcal, dominado por homens, mas que por causa da luta por equidade de gênero, as mulheres têm ocupado espaços de visibilidade.

"Antes as mulheres faziam somente as roupas ou dançavam. Hoje já avançamos um pouco mais, graças a ousadia de algumas. Instrumentos já são confeccionados e tocados por mulheres, composições feitas por nós. Precisamos avançar muito mais, porque a cultura, especialmente o carimbó, nos empodera", declara.

 

Pelo histórico do movimento, onde os homens sempre estiveram em destaque, as mulheres do carimbó ainda precisam reivindicar visibilidade.

"Às vezes, temos que nos impor e dizer: 'Ei, tá faltando mulher nesse coletivo" ou 'eu também quero cantar, tocar'. Vejo com muita alegria a formação recente de grupos femininos, como em Marapanim, 'As Boiunas', em Terra Alta tem o 'Cabocla Morena', em São João da Ponta o 'Flores do Mangue'. Então, estamos no caminho certo", afirma Claudete.

Mestra Claudete Barroso, de Marapanim.  — Foto: Claudete Barroso/Arquivo Pessoal

Mestra Claudete Barroso, de Marapanim. — Foto: Claudete Barroso/Arquivo Pessoal

Mestra Claudete Barroso, de Marapanim. — Foto: Claudete Barroso/Arquivo Pessoal

Para a mestra, o carimbó é também um instrumento de luta das mulheres em diferentes espaços.

"Vejo o carimbó como um grande aliado do empoderamento".

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