31/08/2021 às 08h25min - Atualizada em 31/08/2021 às 08h25min

SEU BOLSO Preço da Cesta básica teve aumento de 124% em 10 anos

Segundo pesquisa do Dieese, gastos com produtos de alimentação já consomem 51% do salário mínimo. Resta aos consumidores reclamarem

Dol
 

“Em dez anos pouca coisa mudou. Nós, consumidores paraenses, continuamos com a alimentação entre as mais caras do país. O que mudou foi as dificuldades, que estão maiores”, confirma Everson Costa, técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese-PA), sobre o estudo que o órgão realizou para verificar a trajetória do preço da cesta básica paraense, nos últimos dez anos. O resultado foi que de 2011 para cá, o valor da alimentação básica aumentou 124,67%, ou seja, mais do que dobrou. E a tendência é que os preços continuem a subir.

Em julho de 2011, o consumidor local gastava, em média, R$232,63 com a alimentação, comprometendo 46,6% do salário mínimo que, na época, era de R$545. Em julho de 2021, uma família formada por quatro pessoas (dois adultos e duas crianças) gastou, em média, R$522,66 com a alimentação básica, no Pará. Esse valor da cesta compromete 51,37% de um salário mínimo, que atualmente é de R$ 1.100.

Segundo Costa, cerca de 1,7 milhão de trabalhadores paraenses recebem um salário mínimo apenas. “Logo a parcela da população que tem mais da metade do salário comprometida pela cesta básica é considerável”, resume o técnico do Dieese.

Vários fatores influenciam essa alta considerável. “O Pará ainda depende da produção de outros estados. Boa parte do que vai para a mesa do paraense vem de fora e de centros produtores distantes. Pesa ainda o preço do combustível que, somente este ano foram oito reajustes, e o frete fica mais caro. As estradas são ruins”, cita. Para ele, o cenário político brasileiro impacta diretamente na economia. “Temos um elevado índice de desemprego, o preço do botijão de gás está mais caro, a conta de energia também. A inflação está alta. Tudo isso reflete no custo de vida das pessoas. Não há, por parte do Governo Federal, políticas públicas para melhorar isso”, reitera Everson.

RECLAMAÇÕES

Otávio se assustou ao calcular os gastos dos alimentos de reposição para o seu restaurante.

Otávio se assustou ao calcular os gastos dos alimentos de reposição para o seu restaurante.

 Otávio se assustou ao calcular os gastos dos alimentos de reposição para o seu restaurante. | Wagner Santana

O comerciante Wilson Batista, 51 anos, lembra que gastava muito menos com as compras no supermercado. “Mas eu lembro que com R$100 eu comprava muito mais coisas que hoje”, enfatiza. A fala dele se deu logo após ele passar sacolas no caixa do supermercado. As mercadorias couberam em três sacos de tamanho médio e custaram cem reais no total. “Foi apenas para completar a despensa”, comenta. Por mês Wilson gasta quase R$ 3 mil em alimentação e na casa dele moram seis pessoas. “Está cada dia mais caro, mesmo a gente comprando menos”, desabafa.

A dona de casa Marli Lima, 57, também se ressente da inflação nas gôndolas. “Apenas comprei o que faltava na geladeira. Gastei R$ 400 em poucos minutos e no início do mês já tinha feito compras”, comentou. “Tudo está caro. Há dez anos, certamente com R$400 eu abastecia a casa e ainda sobraria dinheiro”, disse. Otávio Santos, 38, trabalha em um restaurante. Ontem (25), precisou reabastecer o estoque de carne e hortaliças. Comprou apenas três cortes de carne e mais alguns temperos e verduras. “Já fiz o cálculo no celular, vai dar R$ 260. Veja bem, essas compras são só para repor o que usamos para preparar o cardápio”, atenta o auxiliar de cozinha.

DIFERENÇAS - CESTA BÁSICA

- Julho/2011:

Valor da cesta básica: R$232,63

Salário mínimo: R$545

- Julho/2021:

Valor da cesta básica: R$522,66

Salário mínimo: R$1.100

- Variação: 124,67%

FONTE: DIEESE/PA

Leite também acumula alta de 7,47% desde 2020

O autônomo Hamilton Santos, 56 anos, olha marca por marca das caixas de leite líquido à venda na prateleira do supermercado em busca do preço mais em conta. O motivo se explica pela alta que o produto tem apresentado ao longo dos meses. De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos do Pará (Dieese-PA), em padarias e supermercados de Belém, o produto teve alta acumulada de 7,47%, no comparativo de julho deste ano com o mesmo mês de 2020.

Hamilton é obrigado a escolher uma marca mais barata de leite para alimentar a família

Hamilton é obrigado a escolher uma marca mais barata de leite para alimentar a família

 Hamilton é obrigado a escolher uma marca mais barata de leite para alimentar a família Antônio Melo

A mesma pesquisa apontou que o leite líquido em caixa de 1 litro até apresentou recuo de preço entre alguns dos sete primeiros meses de 2021, mas no apanhado geral desse período também teve alta de quase 6%, no comparativo entre julho e junho, quando o litro do leite cresceu 5,60% e foi comercializado a R $5,47 nas prateleiras. Em julho de 2020, chegou a custar R$ 5,09.

“A verdade é que todas as marcas estão com preços nada em conta, assim como os demais produtos que estão constantemente aumentando. Por conta disso, a gente abre mão da marca que gostamos porque está mais caro e temos que levar uma marca inferior que nem está tão barata assim”, disse o autônomo Hamilton Santos.

Além da pesquisa pela marca e estabelecimento, a troca do leite líquido pela versão em pó não tem sido tão eficaz aos consumidores. “Não compensa, primeiro porque as medidas ou peso não são equivalentes em relação à caixa. Ou seja, pacote de 200g do leite em pó é quase o preço do litro, imagina os de outras pesagens, sei que rende mais, mas também estão caros. Então, o melhor é comprar menos e economizar em casa”, concluiu Simone Freitas, 45, promotora.


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