02/10/2017 às 06h32min - Atualizada em 02/10/2017 às 06h32min

A assistência social de Canaã dos Carajás em boas mãos: uma entrevista exclusiva com a secretária Ana Cristina

Há um mês à frente da pasta, Ana falou sobre o convite para o cargo, os principais desafios sociais de Canaã e um pouco sobre sua história de vida

Kleysykennyson Carneiro - Jornal In Foco
Fotos: Ricardo Mesquita
- Eu não quero aparecer sozinha!
 
Essa foi a primeira frase que nossa equipe ouviu ao entrar no gabinete de Ana Cristina Queiroz Pereira, a nova secretária municipal de desenvolvimento social. Há pouco mais de um mês a frente do cargo, Ana, como uma grande líder, deixou claro que o mais importante de tudo era a sua equipe e, durante quase uma hora de entrevista, a frase foi repetida ainda algumas vezes, deixando claro que o cargo não havia mexido com o seu ego. De cortinas abertas, o gabinete da gestora recebia a luz do sol da tarde, o que, de forma quase metafórica, parecia simbolizar a alvorada de novos tempos na Assistência Social de Canaã dos Carajás.
 
Fomos muito bem recebidos já na recepção da Secretaria. Éramos aguardados na sala de Ana Cristina e fomos recepcionados com alegria pela gestora. Antes de ligar o gravador, a secretária pareceu nervosa para conceder a entrevista. Conversamos um pouco e o nervosismo foi sendo substituído pela Cristina conhecedora da causa que tem em mãos. Segundo ela, os desafios são gigantescos, pois Canaã é uma cidade atípica, mas toda a sua equipe, composta por mais de 200 funcionários, está preparada para lutar por avanços sociais no município.
 
Ana Cristina é filha do Seu Cravinho, conhecido poeta e artesão local. Moradora de Canaã há quase 15 anos, a secretária veio da Bahia com um sonho gigantesco no coração: o de fazer o bem e ajudar na melhoria da qualidade de vida das pessoas. Já são 10 anos de vida pública e muito trabalho prestado à sociedade local. Cristina viu de perto uma vila crescer, se tornar cidade e sofrer com os impactos sociais próprios de um lugar que sofre diretamente com a especulação em torno da mineração.
 
Ana Cristina não tem o seu nome vinculado à política ou partidos. Ela é uma profissional com formação técnica na área e que conhece, como poucos, a pasta que dirige. Durante a entrevista, a gestora se absteve de criticar o passado da Secretaria: “Vamos falar do presente e do futuro apenas.” E, assim, com a perspicácia de quem sabe muito bem o que deve ser feito pelo social em Canaã, Cristina vai escrevendo sua história por linhas retas.
 
Confira agora esta entrevista imperdível com ela.
 
 
Jornal In Foco: Boa tarde. Quem é a Ana Cristina?
 
Ana Cristina: [Ela Pensa um pouco] Essa pergunta eu gostaria de responder no final. Posso?
 
Jornal In Foco: Claro que sim. Bom, já são quantos anos de vida pública?
 
Ana Cristina: Aqui em Canaã já são 10 anos. Foram dois anos na educação e aqui, na SEMDES, já são oito.
 
Jornal In Foco: E neste período, quais foram os maiores desafios que você encontrou?
 
Ana Cristina: Vou me reportar mais à questão da SEMDES. O que nós sempre desejamos, e penso que seria muito importante para o nosso serviço, é a questão da intersetorialidade, que não conseguimos estabelecer parcerias com as outras Secretarias. Eu, que trabalhava como coordenadora do acolhimento institucional, sei que o sistema de garantias de direitos precisava funcionar para a proteção da criança e do adolescente. Infelizmente não é suficiente o trabalho que a gente estabelece. Seria interessante que pudéssemos todos trabalhar juntos, falando a mesma linguagem. Penso que esse é o maior dos desafios. E não me refiro apenas às Secretarias de Governo, mas várias instituições que precisam estar conversando entre si. Diante desta crise que estamos todos vivendo, uma das coisas que tenho visto que é positivo é exatamente isso: as pessoas estão se unindo. Estou chegando agora, é só um mês de trabalho, mas nós estamos conseguindo estabelecer parcerias que, até então, não existiam. A própria Educação tem sido uma grande parceira.
 
Jornal In Foco: Ótimo. E já faz quanto tempo que você reside em Canaã?
 
Ana Cristina: Já são 14 anos e, em janeiro, completarei 15.
 
Jornal In Foco: Certo. Qual a sua formação? E qual a razão da escolha?
 
Ana Cristina: Eu sou Assistente Social, tenho uma pós-graduação em Políticas e Gestão de Serviço Social e agora estou cursando uma de Pedagogia Social e Elaboração de Projetos. Na verdade, eu sonhava em fazer dois cursos: artes plásticas, pois gosto bastante, faço muito artesanato, fotografo... Sempre me preocupei muito com as questões sociais, com as privações em que as famílias de baixa renda são submetidas, as várias formas de violências físicas sexuais, e psicológica, as discriminações... Foi então que escolhi fazer o curso de Serviço Social, para atuar na defesa e garantia de direitos dos nossos usuários de forma ética e humanizada.
 
Jornal In Foco: E você esperava ser chamada para assumir a pasta?
 
Ana Cristina: Não, foi um susto. Eu nunca imaginei passar por isso. Quando me chamaram, eu ainda falei que não tinha capacidade. O convite veio do próprio prefeito Jeová, do Roberto Andrade e da primeira dama, a dona Waina; os três estiveram lá em casa. A gente sabia que eles estavam procurando e, quando eles chegaram lá em casa, comecei a tremer já na hora que os vi [risos]. Me fizeram o convite e me deram um tempo para pensar. Liguei para algumas amigas e elas aceitaram me ajudar no desafio, pois sozinha eu jamais conseguiria.
 
Jornal In Foco: E aproveitando o ganho da sua resposta, por que aceitar este desafio em meio à turbulência em que se encontrava a Secretaria?
 
Ana Cristina: Nós estávamos angustiados com o que poderia vir. Até falei isso para o Jeová: a gente criticar o outro é muito fácil, aí quando chega a oportunidade eu vou correr com medo? Por conta disso, decidi pensar e foi quando as meninas aceitaram comigo. Por isso digo que essa responsabilidade não é só minha, por isso falo sempre nessa administração participativa. Não quero determinar tudo, eu quero ouvir todo mundo. Aceitei o desafio por querer ajudar, fazer mais pelo município e organizar a pasta.
 
Jornal In Foco: Certo. E você estava pronta para assumir este cargo?
 
Ana Cristina: Essa pergunta me deixa intrigada e talvez as pessoas não entendam a minha resposta, mas vamos lá... Eu não estava e nem quero me sentir pronta nunca! Pois pronta, eu penso que é uma coisa que já está acabada e é irretocável e eu não quero isso. Nem sou e nem pretendo me tornar nenhum dia, pois nós estamos em um processo de crescimento, sou falível, vou cometer muitos erros. Quero construir isso a cada dia. Enquanto técnica, eu tenho conhecimento em algumas áreas, mas eu não tenho a experiência do todo. Hoje vivo outra realidade e acho que não posso me dizer pronta, mas estou disposta, são coisas bem diferentes.
 
Jornal In foco: E hoje quais são os maiores desafios sociais de Canaã?
 
Ana Cristina: Ah, é a questão do desemprego, não é? Na verdade, não só Canaã. Esse é um desafio nacional. Canaã, por ser um município atípico, essa questão da migração gera muitos impactos sociais, na questão do próprio acolhimento, o abuso e a exploração sexual, que é uma coisa que precisamos combater. O desemprego traz com ele muita negatividade. Penso que nós precisamos fazer um trabalho sério, principalmente junto à Vale, para tentar fazer uma conversa mesmo no sentido de dar preferência à mão de obra local. Nós precisamos todos cuidar do lugar em que estamos.
 
Jornal In Foco: Quais são os próximos passos da Secretaria na construção de um amparo social mais digno?
 
Ana Cristina: Estamos buscando, isso para o ano que vem, investir na questão dos cursos profissionalizantes, investir nessa questão da geração de emprego e renda... As pessoas pensam muito na Secretaria em relação à concessão de benefícios eventuais, como cestas básicas, que são necessárias, mas penso que isso não resolve o nosso problema. A geração de emprego e renda faz parte da nossa política, qualificar as pessoas, investir na economia solidária, incentivar as associações... Temos o objetivo de pegar uma pessoa que já está sendo atendida dentro dos nossos serviços e ofertar a ela um curso básico na economia solidária, SEBRAE e no SENAI, e depois reunir pessoas para o cooperativismo... Ou seja, incentivar as pessoas a terem condição de se sustentar.
 
Jornal In Foco: É possível mudar a realidade de Canaã?
 
Ana Cristina: Nós estamos em processo de construção. Canaã tem apenas 23 anos. Eu vi uma vila e hoje estou vendo uma cidade que está se desenvolvendo. Qualquer processo de construção não é rápido, nem fácil, mas é viável, acredito nisso e é por essa razão que estou aqui.
 
Jornal In Foco: Mas é uma tarefa difícil...
 
Ana Cristina: Sim, uma tarefa difícil e que não vai ser uma ação só que vai resolver e isso nem é imediato. Estamos tentando construir isso ao longo desse tempo. É óbvio que Canaã vai mudar. Temos muitas pessoas dispostas a construir uma cidade melhor. Vai dar certo.
 
Jornal In Foco: A Secretaria estava pronta para os impactos que sofreria com a desmobilização do S11D?
 
Ana Cristina: Não. Não tem como se preparar para isso. É uma desmobilização muito grande, não é? Mais de 10 mil pessoas ficaram desempregadas e a cidade não estava preparada para isso. Nem uma cidade grande está preparada, a gente vê até mesmo a questão dos refugiados... Alguém está preparado para receber milhões de pessoas? Não! E nós também não estávamos. E penso que se houver processo semelhante lá na frente não haverá maneiras de se preparar para isso também. Acho que pode se programar, algumas questões se pode tentar prever, mas onde colocar 10 mil pessoas?
 
Jornal In Foco: A SEMDES está em boas mãos?
 
Ana Cristina: Olha, essa pergunta que você me faz [risos]... Se eu te disser que está, estou sendo pretenciosa. Se eu disser que não, eu vou estar desacreditando no meu potencial... Então, eu prefiro deixar em aberto, para daqui há algum tempo os nossos usuários e nossos colegas de trabalho responderem por mim. Acho que sou muito suspeita para falar.
 
Jornal In Foco: Algum agradecimento?
 
Ana Cristina: Sim! Gostaria de agradecer à credibilidade que me foi dada, primeiro pelos gestores que me fizeram o convite. Posso ver que eles estão depositando confiança no nosso trabalho. Gostaria de agradecer, em nome da assistente social Eliete Assis, que está de volta à Secretaria, do lugar que nunca deveria ter saído, a toda a equipe que aceitou o desafio junto comigo. Estou muito feliz por estar vendo a alegria e motivação de todos os nossos colegas de trabalho.
 
Jornal In Foco: Muito bem. Agora a pergunta inicial... Quem é a Ana Cristina?
 
Ana Cristina: [a secretária retirou de uma gaveta da sua mesa um caderno simples, de páginas amareladas pela ação do tempo. Dentro dele, páginas escritas por seu pai, fotografias recortadas, desenhos... Registros de uma Ana Cristina ainda criança] Esse caderno aqui foi feito pelo meu pai com os meus primeiros registros. Tem uma carta aqui escrita em 26 de fevereiro de 1976. Essa carta foi escrita pelo meu tio, o nome dele é Aluísio, mas eu o chamo de Tio Lu. [Cristina faz a leitura da carta e não consegue conter a emoção, segura as lágrimas, mas não disfarça a voz embargada] Aqui nesse caderno meu pai registrava tudo, a comida que eu mais gostava, o primeiro dente... Tudo, tudo. E essa carta me define muito bem. A Ana Cristina é uma pessoa que saiu lá da Bahia em busca de oportunidades, chegou em Canaã, encontrou as portas abertas e se dispõe a contribuir com o crescimento da cidade. A Ana Cristina é uma pessoa que se preocupa muito com o próximo e quem está convivendo comigo sabe disso. Esse desafio é muito grande? É. Mas é um compromisso de tentar buscar o melhor e de fazer diferença. Ter a consciência tranquila de que nunca vou conseguir fazer tudo o que eu quero, mas que pelo menos fiz o possível.


Carta escrita pelo Tio Lu, guardada com carinho no caderno escrito por Seu Cravinho




Uma infância feliz

Ana Cristina é o tipo de gestora que a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social necessitava. Ao invés de ter o ego inflamado pelo poder, ela o descentraliza e envolve toda a sua equipe nas decisões que precisam ser tomadas. A alegria nos olhos dos servidores da pasta e a disposição para fazer muito mais pelo município é evidente. São novos tempos para uma das pastas de governo mais importantes e mais pressionadas por resultados.
 
Ana Cristina não quis responder à pergunta sobre a SEMDES estar em boas mãos. Talvez o questionamento fosse desnecessário, a resposta é clara como os raios de sol que invadem o gabinete da gestora e um trecho da carta de Tio Lu é a melhor definição possível para Cristina: “O coração da precoce senhora há de permanecer sempre doce. Já é amada e adorada por todos”, e alguém duvida disso?


Ana Cristina, amada e adorada por todos
 
 
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