23/12/2019 às 08h27min - Atualizada em 23/12/2019 às 08h27min

'Se eu não tiver a cabeça no lugar, eu alopro', diz Bolsonaro sobre investigação do filho Flávio

Presidente recebeu jornalistas neste sábado (21) no Palácio da Alvorada, defendeu controle do Ministério Público e disse que errou

- Jornal In Foco
G1
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O presidente Jair Bolsonaro disse neste sábado (21) que se "não tiver a cabeça no lugar" ele "alopra", ao se referir à exposição de sua família provocada pela divulgação de informações sobre a investigação do Ministério Público do Rio envolvendo um de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ).
 
Ele deu a declaração a jornalistas durante uma conversa de mais de duas horas no Palácio da Alvorada, em Brasília.
 
"O processo está em segredo de Justiça? Te respondo: está, né? Quem é que julga: é o MP ou o juiz? Os caras vazam e julgam? Paciência, pô. Qual é a intenção? Estardalhaço enorme. Será porque falta materialidade para ele e equivale ao desgaste agora? Quem está feliz por essa exposição absurda na mídia? Alguém está feliz. Agora, se eu não tiver a cabeça no lugar, eu alopro", disse Bolsonaro.
 
 Flávio é alvo de uma investigação no Ministério Público do Rio sobre um suposto esquema – a chamada "rachadinha" – no qual ele teria se apropriado de parte do salário de servidores do gabinete quando era deputado estadual no Rio.
 
Os promotores afirmam que Flávio Bolsonaro é o chefe de uma organização criminosa e identificaram pelo menos 13 assessores que teriam repassado parte de seus salários ao ex-assessor dele, Fabrício Queiroz.
 
Entenda as suspeitas do MP sobre Flávio Bolsonaro

O Ministério Público diz que "as provas permitem vislumbrar que existiu uma organização criminosa com alto grau de permanência e estabilidade, entre 2007 e 2018, destinada à prática de desvio de dinheiro público e lavagem de dinheiro".
 
MP do RJ detalha suposto esquema de corrupção envolvendo então deputado Flávio Bolsonaro
 
 O presidente disse que há "abuso" do Ministério Público no caso envolvendo o filho e defendeu controle do MP.
 
"A questão do MP está sendo um abuso. Qualquer uma nota. Qual a interferência minha? Zero”, afirmou o presidente.
 
"Todo poder tem que ter uma forma de sofrer um controle. Não é do Executivo, é um controle. Quando começa a perder o controle, busca pelo em ovo. Eu sou réu no Supremo, sofri muito processo, os mais variados possíveis", completou ele.
 
Na entrevista, Bolsonaro também afirmou que:
 
não deveria ter dito que um repórter tinha 'cara de homossexual'
o foco da economia em 2020 será a criação de empresas
o caso Marielle não está sendo bem conduzido pelo MP do Rio
a possibilidade de ele estar com câncer de pele foi afastada
ainda está discutindo eventuais vetos ao projeto anticrime
trabalhará pela instituição do voto impresso
é favorável a candidaturas avulsas

Declaração a jornalistas

O presidente também disse neste sábado que "erra" e que "não deveria" ter dito a um repórter que ele tinha "cara de homossexual terrível."
 
Bolsonaro deu a declaração na sexta (20), durante entrevista a jornalistas na porta do Palácio da Alvorada, ao ser questionado sobre o que deveria acontecer com o filho, Flávio Bolsonaro, se ele tivesse cometido algum deslize.
 
 
"Você tem uma cara de homossexual terrível. Nem por isso eu te acuso de ser homossexual. Se bem que não é crime ser homossexual", respondeu.
 
Entidades de jornalistas protestam contra postura de Bolsonaro com repórteres
 
Perguntado se havia espaço para arrependimento nas declarações da sexta, Bolsonaro respondeu: "Sim, eu erro. Não deveria ter falado".
 
Questionado se considerava a fala de ontem um erro, Bolsonaro respondeu:
 
"Para quem que eu falei que era terrivelmente homossexual? Não está aqui hoje? Manda um beijo para ele. É igual futebol: ali na frente, de vez em quando, você manda seu colega para a ponta da praia (base da Marinha que teria sido usada como local de tortura na ditadura militar). Depois vai tomar uma tubaína com ele", declarou o presidente.
 
 Protesto das entidades

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal repudiou o que chamou de mais um violento ataque do presidente Jair Bolsonaro a jornalistas.
 
O sindicato citou levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), segundo o qual, neste ano, o presidente dirigiu ao menos um ataque à imprensa a cada três dias.
 
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), afirmou que o presidente assediou moralmente os repórteres e que teve atitude semelhante em mais de dez ocasiões neste ano.
 
A Abraji destacou ainda que apoiadores do presidente acentuam o clima de intimidação aos repórteres na porta do Alvorada. E a entidade ressaltou:
 
"Atacar jornalistas como forma de evitar prestar informações de interesse público e receber aplausos de apoiadores é ação incompatível com o respeito ao trabalho da imprensa, fundamental para a democracia."
 
Balanço e economia

No balanço do ano, o presidente Jair Bolsonaro destacou a atuação do ministro da Economia, Paulo Guedes. Disse que em 2020, o carro-chefe será a economia com foco na criação de empresas.
 
O presidente afirmou que a reforma tributária vai passar no Congresso porque é interesse da sociedade e que defende uma mudança agora na tabela de imposto de renda – aumento do limite de isenção, que hoje é de R$ 1.903,98, para R$ 3 mil.
 
 Sobre uma nova versão da CPMF, o presidente disse que não é a favor, mas não deu mais detalhes. Disse que, nesse campo, se alinha a Paulo Guedes, e não Guedes a ele.
 
"Você está entrando em particularidades que eu não quero aqui falar algo que possa constranger o Paulo Guedes amanhã por desconhecimento da minha parte. Não tenho como saber de tudo que acontece no governo. Eu estava hoje de manhã ouvindo a entrevista do Paulo Guedes na GloboNews, cheguei na primeira hora, faltam 30 minutos. Devo ouvir de novo amanhã a entrevista dele. Para saber realmente a linha dele. Porque eu que tenho que me alinhar a ele. Não ele a mim. É ao contrário. Ele que é meu patrão nessa questão e não eu o patrão dele", afirmou.
 
O presidente disse que não haverá criação de novos impostos, apenas a substituição deles.
 
Questionado sobre qual seria a fonte que permitiria desonerar a folha de pagamento das empresas, o presidente não quis dar detalhes e afirmou que o ministro da Economia, Paulo Guedes, é quem manda na área.
 
Alcolumbre diz que é "improvável" que ideia de Guedes sobre imposto passe no Senado
 
 
Marielle Franco

Bolsonaro também criticou o andamento da investigação sobre a morte da vereadora Marielle Franco.
 
Ele afirmou que o caso não está sendo bem conduzido pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. Disse ainda que, se a investigação sair da esfera estadual para a federal, vai passar a impressão de que ele, Bolsonaro, está querendo ser blindado pela Polícia Federal.
 
Suspeita de câncer

Já em relação a sua saúde, disse que a suspeita de câncer de pele foi afastada.
 
"Foi feita a biópsia, e não deu nada. Se fosse câncer, qual é o problema? Falaria: foi câncer. Querem cortar a orelha? Tira, não tô preocupado com isso", afirmou.
 
Pacote anticrime

O presidente disse que ainda discute a possibilidade de manter no projeto a figura do juiz de garantias.
 
O chamado pacote anticrime, com medidas que endurecem a legislação contra o crime, foi aprovado pelo Senado na semana passada e já está com Bolsonaro para sanção.
 
Pelo texto, o sistema judicial brasileiro teria dois juízes: um responsável por tomar as decisões durante o processo, como determinar prisões provisórias ou quebra de sigilo; e outro para julgar o caso no final.
 
"Segunda-feira (23) eu vou discutir novamente aqui. É que tem coisas que foram colocadas no parlamento. Tem uma questão que está dando um choque ali. É uma questão apenas. O resto está tudo acertado. É juiz de garantias", disse o presidente.
 
 O ministro da Justiça, Sergio Moro, pediu veto a este ponto, por ser contrário à medida. Bolsonaro, no entanto, sinalizou ser favorável à proposta. Perguntado se entende ser necessário 'em alguma medida', ter a figura do juiz de garantias, respondeu que "sim".
 
"O juiz de garantia, o que o Moro alega é que a Justiça não tem como bancar com recurso mais um juiz na Comarca para tratar do assunto. Agora, falam tanto em democracia, nós sabemos que o ser humano está aí, um juiz pode cometer absurdo na sua comarca", afirmou.
 
Natuza: expectativa é que Bolsonaro vete alguns pontos do pacote anticrime
 
Voto impresso

Bolsonaro disse que trabalhará pela instituição do voto impresso para dissipar possibilidade de fraude.
 
 De acordo com Bolsonaro, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, é favorável à proposta. Um projeto aprovado nesta semana na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), de autoria da deputada Bia Kicis (PSL-DF), prevê a impressão do voto por meio de impressoras ligadas às urnas eletrônicas.
 
"O Rodrigo Maia, eu conversei com ele. Nós vamos partir para algo parecido ou voto impresso a partir de agora, no ano que vem. Isso dissipa qualquer possibilidade de fraude aqui no Brasil", afirmou.
 
A determinação de imprimir o voto está prevista na minirreforma eleitoral de 2015. Em 2018, no entanto, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a obrigação, suspendendo, na prática, o dispositivo.
 
Candidaturas avulsas

Bolsonaro defendeu ainda a possibilidade de candidaturas avulsas nas eleições.
 
Partidos políticos, advogados, representantes do Congresso e de movimentos sociais debateram no início de dezembro no Supremo Tribunal Federal (STF), a possibilidade de candidaturas sem filiação partidária.
 
Esse é o tema de um recurso que tramita no STF e cuja decisão deve ter repercussão geral, ou seja, deverá ser seguida em casos semelhantes em todo o país.
 
“Se eu pudesse interferir, eu ia votar favorável a isso aí. Sou a favorável a isso aí”, disse Bolsonaro. “Seria excepcional [a candidatura avulsa]”, afirmou o presidente.
 
JAIR BOLSONARO
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