27/07/2017 às 00h17min - Atualizada em 27/07/2017 às 00h17min

“Se cada um fizer a sua parte, dá pra mudar o mundo” disse Maria Alice, um encanto de criança

Uma entrevista exclusiva com a surpreendente garota de 12 anos, criadora do projeto Encantos de Leitura e participante do quadro Click Esperança do Fantástico

Kleysykennyson Carneiro - Jornal In Foco
Fotos: Ricardo Mesquita
Quando se ouve falar no projeto Encantos de Leitura não há maneiras de não se maravilhar com a iniciativa. Os livros são, sem sombra de dúvidas, agentes transformadores da sociedade e possuem o poder de mudar vidas. Perceber isso, no entanto, parece tarefa difícil demais para a maioria dos adultos. Eis que surge, então, Maria Alice, de apenas 12 anos, uma inteligência impressionante, uma vontade absurda de fazer algo melhor pelo planeta e a força de vontade natural de qualquer criança. Maria não é nenhuma promessa de um futuro brilhante, ela já é plena realidade.


 
Marcamos uma entrevista com ela no Bosque Gonzaguinha pela manhã. Chegamos um pouco antes e ela, sempre acompanhada da mãe, foi absolutamente pontual. Bastante simpática, nos deu um abraço sincero e já foi logo mostrando alguns livros que trouxe, seus maiores orgulhos. Posou para as fotos com a desenvoltura de quem já se acostuma com os flashes e holofotes por onde passa. Maria Alice parece ter brilho próprio, tive essa nítida impressão.


 
Quando nos sentamos para conversar, ela me falou sobre a sua paixão desmedida pelos livros desde muito nova. Maria Alice, que foi alfabetizada aos cinco anos, contou que mesmo sem saber ler, já fica folheando os livros, encantada com as letras e ilustrações que as páginas reproduziam. Ela também falou sobre o projeto Encantos de Leitura, sua participação no Click Esperança, as portas que a leitura pode abrir na vida das pessoas e a sobre a importância desse hábito para todos nós.


 
Jornal In Foco: Olá, Maria! É um prazer falar com você. Como surgiu essa paixão pela leitura?
 
Maria Alice: Bom, desde que eu era pequena, minha mãe me conta que eu ficava remexendo em livros. Eu comecei a ler com cinco anos e a minha mãe é professora de português, o que já é um grande incentivo. Mas veio de mim mesma, pois eu sempre fui de compartilhar o que eu gostava e de ajudar ao próximo. Por isso, resolvi criar essa página para ajudar ao próximo e mostrar que ler é poder. A paixão veio de mim mesma.
 
Jornal In Foco: Ler é uma aventura para você?
 
Maria Alice: Sim, pois a gente viaja para outros lugares, conhece algo, sai de um lugar para o outro pensando de uma forma diferente pelo livro. Então, é uma forma de você se divertir e eu gosto muito.


 
Jornal In Foco: Por que o hábito da leitura é importante? Na sua opinião...
 
Maria Alice: É muito bom que se leia. Por exemplo, quando eu comecei a ler, as minhas notas melhoraram muito. Então, isso é uma razão. Quando se lê, se pensa de uma forma diferente, muda a realidade, você acaba agindo de uma forma melhor e o livro é um ensino, como se fosse quase um professor. Portanto, o hábito é muito bom, pelo menos uma vez por mês, ou por semana. Ele vai te ensinar, mesmo que seja um livro fininho.
 
Jornal In Foco: Com que idade você começou a ler tanto?
 
Maria Alice: Como falei, aprendi a ler aos cinco anos, mas comecei o projeto há dois. Eu tinha 10 anos na época.
 
Jornal In Foco: Há uma frase do Monteiro Lobato, que você deve conhecer, que diz o seguinte: “Um país se constrói com homens e livros”. Você concorda com ela?
 
Maria Alice: Sim, conheço e concordo. Pois com certeza o ser humano vai mudar, já que o livro vai ensinar bastante coisa para eles.


 
Jornal In Foco: Sobre as crianças que convivem com você... Você percebe que elas têm o hábito de ler ou não?
 
Maria Alice: Algumas eu vejo que sim e outras não. Por exemplo, os menorzinhos são os que mais interagem, conversam, perguntam. Já o pessoal da minha idade, não tem tanto o hábito.
 
Jornal In Foco: E você costuma motivá-los para a prática?
 
Maria Alice: Sim, eu costumo motivar. O projeto é basicamente esse: auxiliar quem tem certa dificuldade.


 
Jornal In Foco: Sei que essa pergunta muita gente já fez a você, mas vou fazer... Você tem ideia de quantos livros já leu?
 
Maria Alice: Sim, todo mundo me pergunta isso (risos). E é uma polêmica. Eu tenho no meu acervo pessoal mais ou menos 1000 livros, acho que já li entre 300 e 500.
 
Jornal In Foco: E tem algum que foi mais marcante para você?
 
Maria Alice: Eu acho que o livro da Malala, que é uma menina que queria estudar, que lutou pelas meninas e foi a mais jovem ganhadora do prêmio Nobel da paz. A história da Frida Kahlo, Clarice Lispector, O Diário da Pilar, o Pequeno Príncipe, é claro... Todos trazem um ensinamento diferente.
 
Jornal In Foco: Você citou três autoras/personalidades feministas. Como você se enxerga nesse contexto, você, mesmo que criança, se considera feminista?  
 
Maria Alice: Sim. Eu gosto do assunto. Quando participei do reality pude conviver mais de perto com o tema. Sempre soube a respeito, sabia falar sobre e pelos livros conheço mais ou menos, mas com o pessoal pude aprender bem mais. Eu achei que ficou bem marcado. Aqui eu nunca vi ninguém com esse tema, mas lá tinha bastante.
 
Jornal In Foco: Quantas horas por dia você costuma ler?
 
Maria Alice: Eu leio, geralmente, à noite. Leio até onde consigo, quando começo a ficar com sono. Mas às vezes eu me interesso pelo tema e começo a ler e quando eu vejo já estou terminando o livro. Não tem uma média de tempo.
 
Jornal In Foco: Sim, sim é bem relativo. Maria Alice, o que é o projeto Encantos de Leitura?
 
Maria Alice: O projeto tem uma missão: das crianças incentivar, os adultos mobilizar e juntos as vontades convocar. E eu acho que isso é o mais importante: compartilhar todas as informações que nos dão. O meu projeto é pra incentivar a leitura a quem não tem esse hábito, para transformar alguém que nem dá bola para o livro em alguém diferente. Eu comecei o Encantos de Leitura para ajudar ao próximo. É a minha voz no mundo, a forma que encontrei para mostrar às pessoas no que acredito. É minha forma de crescer.
 
Jornal In Foco: Como surgiu a ideia?
 
Maria Alice: Sempre, quando era menor, eu queria ter um canal para mostrar as minhas ideias, falar do que eu gostava... Tanto que o nome era “Encantos de Maria” pois era voltado mais pra mim. O canal era no YouTube. Mas daí foi mudando e agora nós temos a página no Facebook de incentivo à leitura realmente. Todos os dias tentamos colocar postagens novas.
 
Jornal In Foco: Fora a sua mãe, quem mais incentiva você a ler?
 
Maria Alice: Meu pai, meus professores, os amigos, a família. Todos, de alguma forma, ajudam.
 
Jornal In Foco: Qual a sua meta?
 
Maria Alice: A minha meta é ter uma biblioteca itinerante. Por exemplo, a Casa da Cultura é longe, para quem não tem um meio de transporte é meio ruim. Por isso, quero esse projeto para as pessoas não irem à biblioteca, mas a biblioteca ir até elas. E outra coisa que quero, é ter bastante acervo, pois eu quero ler o livro para a criança e deixar outro com ela.


 
Jornal In Foco: Perfeito. E como foi participar do Click Esperança?
 
Maria Alice: Foi muito bom. Eles mostraram bastante coisa para a gente. O tema era “a sua esperança não está sozinha” e realmente ela não está. Muita coisa boa foi passada pelos mobilizadores, o Caco Barcelos... Não posso dar muito spoiler (risos)... Tem que assistir. Mas o que posso dizer é que foi muito bom. Foram bastante atenciosos com todos nós. Até a mexer em câmeras aprendemos, pois nós é que filmávamos as ações.
 
Jornal In Foco: Você falou sobre a parceria com alguns autores e ilustradores... Queria que você falasse um pouco sobre isso.
 
Maria Alice: Então, eu estou em busca de acervo. E os autores como Ruth Rocha, Flávia Lins e Silva, Rebeca Luciane, ilustradora espanhola, conversam comigo, gostam do projeto e me mandam livros muito bons para que sejam doados para as crianças. Esse contato com os autores e editoras também ajuda bastante.
 
Jornal In Foco: E o contato com o Click Esperança, como surgiu?
 
Maria Alice: Eu fiz a inscrição no site quando vi que eu já tinha idade para participar, pois era de 12 a 17 anos. Mandei o vídeo e, entre mais de 300 participantes, escolheram 20. Uma dessas era eu. Quando me ligaram, pensei que era trote. E o engraçado é que nada conspirava para o bem no dia. Internet que não prestava, operadora ruim, nada estava dando certo. Mas a pesquisadora de conteúdo foi paciente, esperou e deu tudo certo. Foi uma experiência incrível.
 
Jornal In Foco: Você conseguiu fazer amizade com as outras crianças?
 
Maria Alice: Sim. Eu fiz. Nosso time foi o que mais teve pessoas, o da Dira Paes. Foi muito bom conviver com eles, saber como é que é. Mudou mesmo a minha vida para melhor. E todos eles têm projetos muito bons.
 
Jornal In Foco: Maria Alice, essa é a penúltima pergunta e vou ser bem direto. Dá para mudar o mundo?
 
Maria Alice: Sim! Cada um fazendo a sua parte, a gente consegue. Lá eles fizeram uma pergunta parecida e eu respondi isso: se cada um fizer a sua parte dá pra mudar o mundo, mas tem uns que não ajudam: jogam lixo nas ruas, desperdiçam água. Se ninguém ajudar, fica difícil.
 
Jornal In Foco: E por onde começar?
 
Maria Alice: Eu acho que precisamos ajudar ao próximo. Você ajuda o próximo, o próximo ajuda o outro e assim vai aumentando a corrente do bem. Acho que isso é uma coisa forte. Mesmo que a sua cidade seja uma ‘curretelinha’, mas você vai ajudando, ajudando... uma outra cidade vê o que você está fazendo e todas vão mudando aos poucos. Pela educação também, um obrigado, um por favor... Se esforçar nas pequenas coisas: o desperdício de comida, de água. Eu acho que tem que começar por isso.
 
Jornal In Foco: Muito obrigado, Maria Alice.
 
Maria Alice: Obrigada!
 
Nossa conversa com Maria Alice durou cerca de 1 hora. Sem sombra de dúvidas, um exemplo de como gestos simples podem mudar qualquer realidade. De acordo com ela, cerca de 900 livros já foram distribuídos pelo projeto só neste ano em todas as escolas de Canaã. Enquanto conversávamos, algumas crianças se aproximaram e se interessaram também pela iniciativa da menina.
 
Nem tudo são flores, no entanto, a garota contou da dificuldade que ainda encontra em envolver as pessoas no projeto e fazê-las acreditar que o que faz é sério. Outra dificuldade também, apesar dos parceiros, é conseguir acervo, pois os livros têm valor elevado no Brasil. Qualquer ajuda é sempre bastante bem vinda.
 
Ela é uma criança de 12 anos protagonista do seu presente e da nossa sociedade. Ao conversar com Maria Alice, foi impossível não regressar às memórias de um livro lido na infância chamado “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry, citado por ela, inclusive. Uma frase ecoou na minha cabeça: “As pessoas adultas não são capazes de compreender as coisas por si mesmas, e é muito chato para as crianças ter que lhes dar sempre explicações.”
 
Maria Alice não precisa dar mais explicações, ela simplesmente faz e transforma. Não lembrar dos contos infantis e dos finais felizes é impossível, a vida não é bem uma fábula, mas Maria Alice é a prova viva de que as melhores histórias são as que acontecem na vida real.


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